sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Acordo com a decoração


O vaso da cozinha tem um olhar tão penetrante que chego a tremer de medo. Ele fica me encarando como se eu lhe devesse algo. As vezes, quando não olho, ele solta risadas pelas minhas costas. Se diverte com a minha perturbação.
Acordo cedo, faço café, me arrumo pra trabalhar. Ele fica ali, estagnado, sendo sustentado como se a vida fosse fácil assim. Faz o papel de vaso, é decoração e fica feliz por viver ali. É a sorte, um prêmio que a vida lhe deu ao nascer. Ser um vaso, parado, com opiniões e sátiras sobre mim.
Lembro quando o comprei. Era a mais fina loja de decoração da cidade. Entre tantos outros, alguns até mais bonitos, ele se destacou pra mim. Tinha uma cor, um brilho diferente. Se eu soubesse do que passaria teria evitado o desperdício de dinheiro ao trazê-lo pra mim.
Quando volto do trabalho, cansada depois de um dia aparentemente sem fim, ele continua na mesma, parado ali . Não da oi, mas depois que passo retoma as risadas hostis.
Vou pro banho, troco a roupa e deito na minha merecida cama. Penso e defino o que será de mim. De amanhã, não passa, vou procurar um advogado, pedir o divorcio e voltar a acreditar que casamento pode ser algo a mais que acordos superficiais e afins.